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so beautiful or so what

Resenha que fiz do disco novo do Paul Simon, So Beautiful or So What. Saiu no PMC.

Façamos as contas: “So Beautiful or So What” é apenas o 11º álbum de estúdio de Paul Simon desde 1972 e o primeiro em cinco anos. Seus últimos trabalhos relevantes haviam sido as experiências com ritmos sul-africanos em “Graceland”, de 1986, e brasileiros em “The Rhythm of the Saints”, em 1990. Depois disso, o legado de Simon só ganhou certa luz – indireta, por sinal – quando o Vampire Weekend surgiu no meio dos anos 2000, evocando o compositor em praticamente toda nota de guitarra.

Mas se hoje em dia esse tipo de mistura musical parece comum, na segunda metade dos anos 80 não era bem assim – não no mainstream, pelo menos. Simon estava mexendo com sons ainda largamente ignorados no resto do mundo, inclusive por razões políticas – caso da África do Sul ainda regida sob a mão pesada do apartheid. Foi quase como se ele antecipasse a ideia de que uma aldeia global ia finalmente surgir, um pensamento muito em voga após a queda do Muro de Berlim e o fim da guerra fria.

Depois disso, houve um breve e mal sucedido namoro com a música porto riquenha em “Songs from the Capeman” e pronto: Simon entrou para o time dos artistas respeitados pela bagagem, mas que ninguém realmente dava bola.

Pois “So Beautiful or So What” coloca o compositor em evidência de novo. Mais que isso, o disco reposiciona Paul Simon como um artista com algo a dizer.

“So Beautiful or So What” faz um retrato do momento. Simon surge como aquele sujeito que fica só ali no canto, observando e anotando informações para fazer uma crônica do mundo ao redor. É assim em “Question for the Angels”, em que fala da falta de oportunidades em uma era de consumismo. A letra diz “o andarilho vê um anúncio com Jay-Z e duas crianças, cada qual em um de seus joelhos. Ele quer que experimentemos as roupas que ele usa”. Não tem medo nenhum de soar datado no futuro. É urgente, canta o que está na sua frente, do mesmo jeito que nos tempos da parceria com Art Garfunkel.

As sonoridades que já foram chamadas de “exóticas” estão ali, mas valorizadas por uma produção enxuta e sem firulas. A simplicidade das composições valoriza as letras, e o que vale aqui é o tom reflexivo. Simon parece consciente da própria mortalidade em cada uma das 10 faixas do disco e se abraça nessa idéia, mas não sem certa ironia. Em “The Afterlife”, por exemplo, o personagem recém-falecido não encontra nenhum sinal de Deus. Ao contrário, se vê às voltas com a burocracia celestial. “Você tem que preencher o formulário e entrar na fila”, diz.

Em “So Beautiful or So What” Simon mostra que ainda merece atenção, fazendo uma bela obra sobre o amor, a morte e a modernidade.

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