Início > Música > yuck

yuck

No começo dos anos 90 um dos caras dos Pogues deu uma entrevista em que falava da sua preguiça de descobrir novas bandas. “Eu posso sair, comprar um disco dos Stone Roses e acabar adorando, mas é muito esforço para mim. Prefiro ficar em casa ouvindo Sinatra, que eu já sei que é bom”.

De fato, o garimpo de novas bandas pode ser uma atividade pouco recompensadora. Em tempos de internet, nem se fala. Não me entendam mal: bandas boas existem às pencas, mas estou falando aqui de um tipo diferente de relação. Aquela banda com a qual você se identifica imediatamente, logo na primeira audição, e que fica ali no repeat, por dias. Descobrir isso é tão raro quanto presenciar um eclipse solar.

E, para dificultar mais, depois dos 30 o seu repertório afetivo já está praticamente formado. É um clube fechado, frequentado pelas bandas que estiveram com você nos momentos importantes da sua vida. No fundo, você não quer mais gente nessa festa. Já está bom assim.

Só que aí você descobre um disco como a estreia do Yuck. E começa a considerar que, bem, talvez haja um lugarzinho para mais um.

As três maiores influências do grupo são evidentes: o My Bloody Valentine, o Teenage Fanclub e o Dinosaur Jr. – o que já rendeu à banda o apelido de “My Teenage Dinosaur”. O som é puro indie rock dos anos 90, com aquela melodia docinha, para dançar de olhos fechados, acompanhada de guitarras sujas e letras de amor. É o retorno triunfal dos shoegazers – um termo inventado pela imprensa para as bandas que tocavam olhando para os próprios pés.

Dê um desconto para a capa horrenda. Os primeiros acordes de “Get Away” já entregam o que vem a seguir: muita distorção e riffs pegajosos de guitarra. O tom continua em “The Wall”, para dar uma baixada em “Shook Down”, uma balada que podia tranquilamente fazer parte do repertório do Teenage Fanclub. “Georgia”, a melhor do disco, é embalada por um dueto entre os irmãos Daniel e Ilana Bumberg. “Sunday”, como o nome sugere, é uma canção ensolarada, cujo refrão diz “um dia você vai me aceitar de novo”. O universo do Yuck é o das paixões adolescentes, espalhadas em praticamente todas as letras do disco. O álbum fecha com “Rubber”, com mais de sete minutos de distorção e barulho, porém em ritmo lento – praticamente um manifesto da sonoridade da banda.

A verve noventista do Yuck é tão grande que a banda parece ter sido congelada em 1994 e só agora foi reintroduzida à civilização. Impressiona mais que eles sejam um quarteto de garotos na faixa dos 20 anos, e que, portanto, tinham acabado de largar as fraldas quando as bandas que os influenciaram estavam lançando seus melhores álbuns. Cabe perguntar: como estes caras ouviram esses discos? Quem jogou uma cópia do “Nowhere”, do Ride, na mão deles? De onde veio a paixão pelo “Loveless”, do My Bloody Valentine, ou pelo “Bandwagonesque”, do Teenage? E o “Where You Been”, do Dinosaur Jr.? Eles baixaram por engano?

Talvez tenha sido obra de um irmão mais velho. Quem sabe um primo. Ou então vai ver que é só o espírito do tempo, que a cada década reproduz a moda de 20 anos antes. Estamos em 2011, e o revival dos anos 90 está apenas começando.

Se for isso, começamos bem. Yuck, bem vindo ao clube.

CategoriasMúsica
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. Nenhum trackbacks ainda.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.